Da reconciliação manual à geração contínua: arquitetura para relatórios regulatórios no SFN

15 de Jan de 2026
Da reconciliação manual à geração contínua: arquitetura para relatórios regulatórios no SFN

No Sistema Financeiro Nacional, a geração de relatórios regulatórios é um processo mandatório e de alta complexidade. Para instituições financeiras e de pagamento, a prestação de contas ao Banco Central do Brasil é materializada através do Catálogo de Documentos (CADOC), um conjunto de mais de 70 relatórios que detalham a saúde financeira e operacional das entidades.

Documentos como o CADOC 4010 (Balancete Patrimonial Analítico) e 4016 (Balanço Patrimonial Analítico) exigem um nível de detalhe e precisão que expõe as fragilidades de arquiteturas contábeis que não foram projetadas com a integridade dos dados em seu núcleo.

O processo de geração desses arquivos é frequentemente manual, reativo e propenso a erros. Times de finanças e contabilidade dedicam dias a cada fechamento para consolidar dados de fontes heterogêneas, realizar conciliações em planilhas e ajustar formatos para atender aos layouts rigorosos do BACEN. Este esforço não apenas desvia talentos de atividades estratégicas, mas também introduz um risco regulatório significativo, onde falhas podem resultar em apontamentos e sanções.

Hoje podemos dizer que a automação de relatórios regulatórios não é um problema de ferramenta, mas sim uma consequência de uma arquitetura, visto que diversas correções e revisões manuais são necessárias pelo fato de a integridade dos dados não ser garantida antes do registro no ledger. O grande desafio é transformar a geração de CADOCs de um desafio operacional em um processo determinístico e auditável.

COSIF: a gramática contábil que fundamenta os relatórios

Para que a automação seja possível, é preciso primeiro entender a linguagem do regulador. No Brasil, essa linguagem é o COSIF (Plano Contábil das Instituições do Sistema Financeiro Nacional). Ele não é uma sugestão; é a gramática obrigatória que padroniza como cada operação financeira deve ser classificada. Desde uma tarifa de PIX até a compra de um título público, cada transação precisa ter um "endereço" COSIF correspondente.

Ignorar essa gramática no início do processo é a causa raiz dos problemas de fechamento. Se o plano de contas interno de uma instituição não reflete nativamente a estrutura do COSIF, a geração de relatórios se transforma em uma complexa tradução manual, onde a probabilidade de erro é diretamente proporcional ao volume de dados. É essa desconexão que leva à falha estrutural que veremos a seguir.

A falha estrutural da classificação a posteriori

Em muitas instituições, a arquitetura contábil é construída com uma abordagem transaction-first. A prioridade é processar a transação, e a classificação contábil e regulatória é tratada como um passo subsequente. Este modelo, que prioriza a execução em detrimento da validação, cria três problemas estruturais:

  1. Custo de reconciliação: A ausência de uma fonte única da verdade para dados contábeis exige que as equipes gastem um tempo desproporcional em reconciliações. Cada fechamento se torna um exercício de arqueologia de dados para corrigir lançamentos que nasceram sem a conformidade necessária.

  1. Janela de risco: O intervalo entre a ocorrência da transação e sua correta classificação cria uma janela onde a visão da posição de risco da empresa está incompleta. Divergências só são descobertas dias ou semanas depois, quando a capacidade de ação corretiva é limitada.

  1. Falta de auditabilidade: Um processo que depende de ajustes manuais e planilhas é inerentemente difícil de auditar. Rastrear a origem de um número em um relatório final pode se tornar uma tarefa investigativa complexa, minando a confiança nos dados.

A tese central é que a qualidade de um relatório é determinada no momento em que o lançamento contábil é proposto, não quando o relatório é gerado.

CADOC 4010 e 4016: a visão do regulador

O CADOC 4010 é a materialização mensal dessa necessidade de transparência. Ele não é apenas um balancete de saldos, mas uma visão analítica que exige desdobramentos por subtítulos, prazo, moeda e contraparte. Se a arquitetura do seu ledger não captura essa granularidade no momento da transação, a geração do 4010 se transforma em um quebra-cabeça manual.

O CADOC 4016, por sua vez, é o balanço semestral, refletindo a posição patrimonial após a apuração de resultado. Ele exclui contas de receita e despesa, e sua consistência é cruzada com os seis CADOCs 4010 enviados no período. Qualquer divergência resulta em apontamentos automáticos pelo BACEN.

Documento

Periodicidade

Foco principal

CADOC 4010

Mensal

Balancete patrimonial analítico com desdobramentos

CADOC 4016

Semestral

Balanço patrimonial analítico pós-apuração de resultado

Garantindo a integridade contábil no lançamento

Uma arquitetura validation-first inverte o modelo tradicional. Nela, uma transação não é um comando para mover fundos, mas uma proposta que deve passar por um rigoroso processo de validação antes de ser aceita pelo ledger. Isso garante que apenas transações válidas, íntegras e conformes sejam persistidas, eliminando a necessidade de rollbacks e correções manuais.

Essa abordagem se materializa em validações transacionais concretas que ocorrem antes do registro:

  • Validação de plano de contas: Antes que uma transação seja processada, o sistema verifica se as rotas/rubricas contábeis especificadas estão de acordo com o plano de contas (COSIF) vigente na instituição. Uma tentativa de usar um código COSIF obsoleto ou uma rubrica inadequada para a operação é rejeitada na origem, impedindo que um dado inválido contamine o ledger e seus reportes futuros.

  • Validação de tipos de conta: A arquitetura pode impor regras sobre como diferentes tipos de contas interagem. Por exemplo, pode-se definir que uma Conta de Pagamento de um cliente não pode transacionar diretamente com uma Conta de Liquidação interna, exigindo uma Conta de Reserva como intermediária. Uma transação que viole essa regra é bloqueada antes de ser registrada, garantindo a segregação e a conformidade dos saldos.

Ao aplicar essas validações no início do fluxo, o ledger se torna, por definição, uma fonte da verdade que é não apenas matematicamente balanceada (double-entry), mas também estruturalmente e regulatoriamente correta. O resultado é um registro limpo, auditável e livre de dados que exigiriam intervenção manual.

Automação como consequência dessa arquitetura

Quando os dados já nascem estruturados e validados, a geração de relatórios deixa de ser um projeto de consolidação e se torna um processo de renderização. É neste ponto que uma ferramenta como o Reporter da Lerian se encaixa, sendo uma engine de templates que se conecta diretamente à fonte da verdade que já contém dados íntegros — para gerar qualquer formato de relatório exigido.

O processo se torna trivial:

  1. Dados com integridade garantida: a sua arquitetura e o seu ledger asseguram que cada transação registrada já contenha os metadados necessários e corretos (conta COSIF, prazo, contraparte, etc.).
  2. Template definido: um template é criado para mapear os campos do ledger para o formato XML do CADOC 4010.
  3. Renderização: O Reporter executa o template, consultando o ledger e gerando o arquivo final em segundos, pois não há necessidade de transformações ou correções de dados.

Exemplo de template (Pongo2 para CADOC 4010)

O exemplo abaixo ilustra como o template do Reporter busca dados diretamente de um ledger com dados já validados para gerar o XML do CADOC 4010.

Este template demonstra como a complexidade é abstraída. O trabalho pesado de validação e estruturação de dados já foi feito no momento da transação. O Reporter transforma esses dados íntegros em relatórios regulatórios em segundos, sem necessidade de intervenção manual.

Conclusão: compliance como infraestrutura

A geração de relatórios regulatórios não precisa ser um gargalo operacional. Ao tratar o compliance como um requisito de infraestrutura e adotar uma arquitetura que garanta a integridade dos dados consultados, as instituições podem transformar essa obrigação em um processo automatizado, auditável e de baixo risco.

A capacidade de gerar um CADOC 4010 em minutos vem de uma ferramenta de relatórios robusta e moderna, somada a uma fundação contábil sólida, onde cada lançamento já nasce em conformidade.

Se sua organização ainda enfrenta o desafio mensal de fechamentos manuais, reflita sobre se a ferramenta geradora de relatórios traz a flexibilidade que o seu time precisa e/ou se a sua arquitetura está preparada para garantir a integridade dos dados desde a sua origem.