No ecossistema de tecnologia financeira, a integração com provedores externos de validação — para processos como Know Your Customer (KYC), Anti-Money Laundering (AML) e prevenção a fraudes — é uma necessidade ao mesmo tempo fundamental e básica. À primeira vista, a tarefa pode parecer uma simples integração de APIs, porém a realidade revela uma complexidade oculta e multifacetada. Orquestrar múltiplos provedores em um ambiente de produção que exige baixa latência, alta disponibilidade e auditoria rigorosa é um desafio de infraestrutura, não apenas de integração.
A complexidade oculta de integrar provedores externos
A integração com um único provedor de validação já expõe uma série de desafios que vão muito além de uma simples chamada HTTP. Cada provedor opera como um sistema distinto, com suas próprias idiossincrasias de autenticação, modelos de dados, mecanismos de resposta e políticas de uso. Por exemplo, a integração com um provedor de KYC pode envolver a gestão de um fluxo de autenticação, tratamento de respostas via webhooks assíncronos, respeito a limites de requisições (rate limits) e a implementação de uma estratégia de timeout que equilibre a experiência do usuário com a confiabilidade do serviço.
Agora, multiplique essa complexidade pelo número de provedores necessários para um produto financeiro robusto: um para KYC, outro para AML, um terceiro para scoring de fraude, talvez um quarto para verificação de identidade biométrica. O desafio deixa de ser a integração ponto a ponto e se torna um problema de orquestração. Como coordenar as chamadas a esses serviços? Como garantir que a falha de um não cause uma falha em cascata? Como abstrair as diferenças entre eles para evitar um acoplamento rígido (vendor lock-in)? A integração é apenas o ponto de partida; o verdadeiro desafio reside em construir uma camada de orquestração que atenda aos rigorosos requisitos não funcionais do setor financeiro.
Requisitos não funcionais em fintech: uma barra mais alta
Os requisitos de sistemas em fintech são significativamente mais exigentes do que em outros setores. A gestão de dinheiro, risco e conformidade regulatória impõe uma necessidade de robustez que permeia toda a arquitetura do sistema, especialmente na camada de validação.
Latência: Pagamentos e transferências instantâneas não são mais uma novidade ou futuro, são a realidade e padrão esperado. Logo, a latência é um componente crítico da experiência do usuário. Um fluxo de validação síncrono deve, idealmente, ter uma latência percentil 99 abaixo de três segundos. Atingir essa meta enquanto se comunica com múltiplas APIs externas exige estratégias sofisticadas de paralelização, cache e gerenciamento de timeouts.
Disponibilidade: O SLA (Service Level Agreement) da maioria dos provedores de SaaS raramente ultrapassa 99.9%, e muitos operam em torno de 99.5%, o que se traduz em várias horas de inatividade potencial por mês ou ano. Para uma fintech, a indisponibilidade de um provedor de KYC ou antifraude não pode significar a interrupção do serviço. A arquitetura deve ser projetada para resiliência, tratando a falha de um provedor como um evento esperado, não como uma exceção.
Auditabilidade: A conformidade regulatória exige uma trilha de auditoria completa e imutável. Não basta registrar que um cliente foi aprovado no KYC; é preciso saber exatamente quando a verificação ocorreu, qual provedor foi utilizado, qual a versão de sua API, quais dados foram enviados e qual a resposta completa recebida. A orquestração deve gerar esses dados como um subproduto natural de sua execução.
Orquestração para um sistema resiliente
Para atender a esses requisitos descritos acima, uma camada de orquestração robusta deve implementar um conjunto de padrões de arquitetura de microsserviços e sistemas distribuídos e construir isso do zero é uma tarefa de engenharia significativa.
Circuit Breakers: para prevenir falhas em cascata. Se um provedor externo começa a falhar ou a responder lentamente, o circuit breaker "abre", interrompendo as chamadas a esse serviço por um período pré-determinado. Isso permite que o provedor se recupere e impede que o seu sistema fique sobrecarregado com requisições presas em timeouts. Uma implementação completa gerencia estados de "fechado", "aberto" e "semiaberto", testando a recuperação do serviço com um número limitado de chamadas.
Fallback Chains: para garantir a alta disponibilidade, o orquestrador pode ser configurado com uma cadeia de provedores alternativos. Se a chamada ao provedor primário falhar (seja por um erro ou por um circuit breaker aberto), o sistema automaticamente tenta o próximo provedor na lista. O principal desafio técnico aqui é a criação de uma camada de abstração que normalize as diferentes APIs e modelos de dados dos provedores, permitindo que sejam trocados de forma transparente.
Estratégias de timeout e retry: definir um timeout agressivo é crucial para proteger a latência do seu sistema. No entanto, um timeout muito curto pode gerar falsos negativos. Uma estratégia eficaz combina um timeout razoável com uma política de retentativas (retries) com exponential backoff, que aumenta o tempo de espera entre as tentativas para não sobrecarregar um serviço que pode estar em processo de recuperação.
Execução paralela e condicional: para otimizar a latência, validações independentes devem ser executadas em paralelo. Por exemplo, uma verificação de fraude e uma consulta de limites de crédito podem ocorrer simultaneamente. A orquestração condicional, por sua vez, otimiza custos e a experiência do usuário, executando validações apenas quando necessário (ex: uma verificação AML aprofundada apenas para transações acima de um certo valor).
O custo real do vendor lock-in
Um acoplamento rígido a um provedor externo é uma das dívidas técnicas mais perigosas que uma fintech pode acumular e que ocorre com uma frequência muito maior do que deveria. Imagine um cenário onde sua arquitetura está totalmente acoplada à API do Provedor A - lógica de autenticação, parsing das respostas, tratamento de erros e a gestão dos webhooks todos específicos. Se esse provedor decidir aumentar seus preços em 200% ou sofrer uma queda de qualidade no serviço, a migração para um outro se torna um projeto de refatoração que pode levar meses, aprisionando a empresa a um parceiro desfavorável.
A solução para esse problema é a criação de uma camada de abstração, uma interface interna unificada que desacopla o seu sistema dos detalhes de implementação de cada provedor, porém isso demanda um nível de entrega que muitas vezes sucumbe ao cenário de prazos, prioridades, etc. Nesse modelo de arquitetura, a troca entre vendors deixa de ser uma tarefa de código e passa a ser vista como algo mais próxima a uma mudança de configuração.Tal abstração é um dos principais valores entregues e percebidos quando se usa uma plataforma de orquestração bem projetada.
Orquestradores: quando fazem sentido?
A decisão entre construir essa camada de orquestração internamente ou adotar uma ferramenta especializada (seja open-source ou proprietária) é um trade-off estratégico. Construir do zero pode fazer sentido para equipes com um ou dois provedores e requisitos simples. No entanto, à medida que o número de integrações, produtos e requisitos de resiliência aumenta, o custo de manutenção da solução caseira cresce exponencialmente.
Uma ferramenta de orquestração eficaz oferece os padrões discutidos — circuit breakers, fallbacks, retries — como funcionalidades nativas. Ela fornece uma DSL (Linguagem de Domínio Específico) para definir fluxos de trabalho de forma declarativa, gera trilhas de auditoria automaticamente e oferece observabilidade (métricas, logs e traces) sobre a performance de cada provedor. Ferramentas nessa categoria frequentemente implementam o padrão validation-first, onde as validações são orquestradas como uma pré-condição para a escrita em um ledger, garantindo a consistência e integridade dos dados. Contudo, seu valor principal reside na abstração da complexidade da integração e no fornecimento de resiliência operacional pronta para uso.
Uma das soluções disponíveis no mercado que foi concebida pensando em encarar esses desafios, é o Flowker, da Lerian. Ele foi projetado como um motor de orquestração declarativo que externaliza a lógica de validação em workflows gerenciados. Ao fornecer uma camada de abstração sobre os provedores e implementar nativamente padrões como circuit breakers, fallback chains e uma DSL para transformações de dados, o Flowker permite que as equipes de engenharia se concentrem na lógica de negócios do produto, em vez de reconstruir a infraestrutura de resiliência a cada nova integração. Essa abordagem não apenas mitiga o vendor lock-in, mas também garante que a trilha de auditoria e a observabilidade sejam componentes de primeira classe.
Conclusão: orquestração como infraestrutura core
A orquestração de validações em fintechs transcende a simples integração de APIs, é um desafio de infraestrutura fundamental. Lidar com a latência, garantir a disponibilidade e produzir trilhas de auditoria detalhadas enquanto se gerencia múltiplos provedores externos exige uma arquitetura sofisticada e resiliente. E tratar essa camada como um componente de infraestrutura core, e não como uma série de integrações ad-hoc, é o que permite que as equipes de produto inovem com velocidade sem comprometer a estabilidade e a conformidade do sistema. Seja construída internamente ou adotada através de uma ferramenta especializada, uma camada de orquestração robusta é um dos investimentos mais estratégicos que uma fintech pode fazer.