Pix como commodity: o que diferencia quem processa de quem constrói infraestrutura

16 de Abr de 2026
Pix como commodity: o que diferencia quem processa de quem constrói infraestrutura

O sistema de emissão de som, os alto-falantes, não mudam há cerca de 100 anos. A evolução em torno da tecnologia por melhor qualidade de audio atingiu patamares em que dificilmente tem o que "inovar". Porém, se analisarmos as marcas que são referência em dispositivos de áudio, percebemos que a evolução foi para além da qualidade técnica em si. Em dado momento, ela passou a ser muito mais contextual, amarrada a outras tecnologias.

O sistema de entrada que antes possuia cabos de conexão fisica, passa a ser sem fio, via bluetooth e com o passar do tempo, evoluiu para Wi-Fi. Antes, a nossa interface era limitada ao analógico e agora conseguimos controlar o que pode ser emitido, quando, como e de onde.

Se analisarmos o atual momento do Pix, entramos nesse mesmo paradigma. E o que chama atenção é que, dos 100 anos da caixa de som, o Pix tem somente 5 anos de idade. O que enfrentamos não é o fim do SaaS ou da tecnologia de pagamentos. É a commoditização dos meios de pagamento, assim como ocorreu com as caixas de som. Uma mudança de uma era de distribuição para uma era de domínio contextual. E é nesse domínio contextual que a Lerian construiu o seu moat.

Evolução do ecossistema

De acordo com o estudo do CEPR (Centre for Economic Policy Research), publicado em 2019 sob o título *Banking Disrupted? Financial Intermediation in an Era of Transformational Technology*, a entrada de bigtechs e fintechs no sistema financeiro provocou um processo de unbundling: serviços que antes eram exclusivos dos bancos passaram a ser oferecidos de forma fragmentada por novos participantes, cada um atacando uma vertical específica. O efeito disso foi duplo: aumento do acesso a serviços financeiros e aumento da competitividade, com uma necessidade real de inovação por parte do mercado.

Não só isso, os meios de pagamento se mostraram e se mostram muito lucrativos. O Global Payments Report de 2025, publicado pelo Boston Consulting Group (BCG), trouxe que fintechs focadas em pagamentos representam 45% da receita total de fintechs globalmente, tendo gerado US$ 176 bilhões em receita em 2024 com crescimento anual de 23%. O que faz com que exista um interesse cada vez maior das empresas e, consequentemente, aumento da oferta.

A commoditização

Com a convergência para um cenário de alta do SaaS, os meios de pagamento se consolidaram e passou a ocorrer um diferencial competitivo no preço. Porém, com o ganho de maturidade tecnológica, aumento do acesso a informação e domínio do core bancário, ocorre um nivelamento do conhecimento e da informação por si só. O moat deixa de ser o preço.

Os produtos que estão embasados em tecnologias altamente estagnadas perduram perante a facilidade de adaptação em um contexto de sociedade, consumo e mercado. A caixa de som não morreu, ela se reinventou pelo contexto ao redor dela. Com o Pix, o caminho é o mesmo.

O domínio contextual

Na Lerian, o nosso time de Pix trabalhou em diversos contextos de integração, vivenciou as mudanças, implementações e regulamentações quase desde o dia em que ele nasceu, há 5 anos. A integração é a mesma para todo e qualquer participante: é um tipo de transação regulamentado e padronizado por um órgão regulador. Mesmo assim, em 5 anos, o sentimento do mercado, que por muito tempo foi meramente preço e margem por transação, passa a ter exigências mais maduras, relacionadas à capacidade de adaptação.

O time sabe a receita e os ingredientes de cor. Mas tem uma coisa que o time e a Lerian detêm em relação ao contexto de integração que não é facilmente traduzido ou disseminado. Quem oferta um BaaS, por exemplo, tem interesse em abstrair a complexidade da integração para criar dependência. O que se entrega é uma camada de conveniência que, na prática, esconde decisões de arquitetura que limitam o cliente no longo prazo.

Com isso, tivemos uma oportunidade de planejar e construir algo que sempre ficou incompleto no mercado. A combinação intencional de decisões arquiteturais, visão de composição e agnosticidade passa a ser o nosso moat. A tecnologia se copia, mas o conjunto de escolhas estruturais, construídas com intenção ao longo de anos de experiência em integração, não.

Arquitetura com visão holística

A escolha da arquitetura da nossa solução de Pix não se baseia puramente em um único contexto de cliente. Nasce de um domínio profundo do que é importante pro usuário final e de um estado de não conformidade com certos comportamentos normalizados. Resiliência, consistência transacional, integridade financeira não podem ser diferencial. O objetivo é estabelecer uma régua de mercado em que isso se torne básico e que o nosso software tenha ganhos reais além disso.

Essa inquietação foi importante para que pessoas de produto e engenharia fizessem algo diferente do que já tem no mercado, com vantagens competitivas que realmente façam sentido para o cliente além do preço, que tragam uma perspectiva de futuro e evolução conjunta, sem gambiarras.

Por esse motivo, a Lerian valoriza muito a decisão. Porque essa decisão é algo que torna produtos de tecnologia realmente escaláveis e bons. O resultado pode ser um commodity, como por exemplo o Midaz disponibilizado como código aberto. A nossa intenção é tornar a régua de mercado balizada em conceitos triviais de ledgers para que o nosso mercado tenha evolução. Uma instituição de pagamento ou fintech não é nosso concorrente. Quanto mais construirmos algo bom e suficiente, o mercado evolui e gera valor indireto e direto na nossa solução.

O que eu quero dizer é que o Pix faz parte disso. Os nossos produtos de código aberto são construídos de maneira que se tornam primitivos financeiros para algo como nosso plugin de Pix, que é um produto comercial da Lerian. É onde o valor dos primitivos se materializa em uma solução completa para o cliente. Na prática, isso significa que cada peça resolve um problema específico sem invadir o domínio da outra, e cada uma funciona de forma independente.

O Midaz não é um ledger bancário, mas possui comportamentos que garantem a fluidez do Pix em seu próprio domínio, sem se preocupar se o ledger possui um comportamento voltado para outro paradigma. O Pix não precisa se preocupar com uma adaptação específica para diversos ambientes de conciliação, porque temos o Matcher que possui esse escopo. Cada primitivo tem uma responsabilidade clara, e o plugin de Pix se beneficia dessa composição sem herdar complexidade que não é dele. A composição é uma possibilidade arquitetural, não uma exigência de design de ledger.

Evolução

Vivemos um momento de grande volatilidade — não só econômica, mas estrutural, porque nunca se sabe quando uma mudança de comportamento social pode redesenhar nossas premissas. Isso exige soluções cada vez mais flexíveis. E a vantagem competitiva está no poder de personalização, o que exige agnosticidade.

Uma das premissas na nossa construção é não prender o cliente a um provedor ou stack. É permitir que ele escolha conforme o que for mais aderente em relações comerciais ou até mesmo de momento da instituição. Na prática, isso significa que se um cliente precisa trocar de provedor de liquidação ou migrar de infraestrutura, a nossa solução não impõe uma reimplementação. A arquitetura foi pensada para que essas decisões sejam do cliente, não nossas.

Essas são só algumas das decisões que a Lerian tomou para criar um diferencial competitivo que vai além do que já existe no mercado. Mas além de decisões de produto e engenharia, esse texto é também um convite: espero que sirva de reflexão pra você pensar sobre o seu próprio moat, sobre o que te diferencia quando o preço e a tecnologia se nivelam.

Referências

1. Petralia, K., Philippon, T., Rice, T. & Véron, N. (2019). Banking Disrupted? Financial Intermediation in an Era of Transformational Technology. Geneva Reports on the World Economy 22, ICMB/CEPR.

2. Boston Consulting Group (2025). Global Payments Report 2025: The Future Is (Anything but) Stable.