Ring: como a Lerian usa agentes autônomos no desenvolvimento de software

26 de Fev de 2026
Ring: como a Lerian usa agentes autônomos no desenvolvimento de software

Por que a IA é central na estratégia da Lerian
A Lerian enfrenta um desafio comum a empresas de tecnologia em crescimento: escalar a capacidade de desenvolvimento sem comprometer a qualidade. A resposta tradicional, contratar mais desenvolvedores, traz limitações conhecidas: integração demorada de novos membros, inconsistência de padrões e o famoso "fator ônibus", no qual o conhecimento crítico se concentra em poucas pessoas.

A abordagem da Lerian foi diferente: codificar o conhecimento institucional em agentes de IA.

Em vez de depender de documentação estática que ninguém lê, ou de esperar que os desenvolvedores sigam convenções, a Lerian criou o Ring, uma biblioteca de habilidades e fluxos de trabalho que transforma boas práticas em comportamentos obrigatórios.

O resultado? As equipes relatam:

  • Redução em problemas de "funciona na minha máquina"
  • Ciclos de depuração mais rápidos
  • Mínimo de 85% de cobertura de testes unitários (imposto pelo TDD obrigatório)

O que é o Ring

O Ring é um sistema de habilidades e agentes autônomos para Claude Code que impõe práticas comprovadas de engenharia de software. Atualmente, consiste em 9 plugins ativos com 91 habilidades, 44 agentes especializados e 36 comandos.

A arquitetura central é simples: definições em Markdown com frontmatter YAML, descobertas automaticamente na inicialização da sessão e executadas através das ferramentas nativas do Claude Code/Droid.

Mas a inovação não está na tecnologia, está na filosofia de design.

O princípio fundamental: agentes são executores, não decisores

O insight central do Ring é que os problemas de qualidade em código gerado por IA não são técnicos, são comportamentais. A IA tende naturalmente a:

  • Pular testes e ir direto para a implementação
  • Fazer mudanças sem entender a causa raiz
  • Declarar tarefas como concluídas sem verificação
  • Repetir erros conhecidos

A solução não são prompts melhores. A solução são fluxos de trabalho estruturados que previnem atalhos.

O Ring impõe uma separação estrita de papéis:

Papel

Responsabilidade

O Que Pode Fazer

Orquestrador

Carregar tarefas, despachar agentes, rastrear progresso

Gerenciar fluxo, reportar status

Executor (Agente)

Implementar código, rodar testes, aplicar padrões

Ler/escrever código, validar conformidade

O orquestrador nunca lê o código-fonte diretamente. Essa restrição previne o desperdício de contexto e garante que agentes especializados carreguem os padrões corretos do Ring.

Vou explicar os dois principais plugins do Ring que utilizamos no dia a dia, o PM-team e o Dev-team.

Como o PM-Team funciona: planejamento antes do código

O plugin pm-team (Product Management Team) implementa um princípio inegociável: os requisitos de negócio devem estar completamente definidos antes das decisões técnicas.

Duas trilhas de planejamento

Trilha

Gates

Duração

Quando Usar

Pequena

4 gates

<2 dias

Funcionalidades simples, com arquitetura já conhecida

Grande

9 gates

2.5 a 4.5 horas

Funcionalidades complexas ou novos serviços

O fluxo de trabalho de 9 gates (funcionalidades grandes)

  • Gate 0: Pesquisa - Agentes paralelos investigam padrões, documentação e práticas.
  • Gate 1: PRD - Requisitos de negócio (O QUÊ/PORQUÊ, nunca O COMO).
  • Gate 2: Mapa de Funcionalidades - Relacionamentos e ordem de implementação.
  • Gate 3: TRD - Arquitetura técnica (padrões abstratos).
  • Gate 4: Design de API - Contratos e operações.
  • Gate 5: Modelo de Dados - Relacionamentos entre entidades.
  • Gate 6: Mapa de Dependências - Escolhas tecnológicas explícitas.
  • Gate 7: Divisão de Tarefas - Tarefas com critérios de sucesso.
  • Gate 8: Subtarefas - Passos atômicos de 2 a 5 minutos.

Por que essa separação?

A tendência natural é misturar "o que construir" com "como construir". Isso cria documentos que são simultaneamente vagos demais para implementar e específicos demais para mudar.

O PM-Team impõe que o PRD (Product Requirements Document) contenha apenas:

  • Problema: O que está errado hoje?
  • Usuários: Quem sofre com isso?
  • Impacto: Quanto isso custa?
  • Sucesso: Como medimos que resolvemos o problema?

Detalhes técnicos como "usar PostgreSQL" ou "implementar em Go" são proibidos no PRD. Eles pertencem ao TRD (Technical Requirements Document), que só começa após a aprovação do PRD.

Como o Dev-Team funciona: qualidade imposta por design

O plugin dev-team (Development Team) gerencia a execução de código através de um ciclo de 6 gates orquestrado por agentes especializados.

Os 6 Gates de desenvolvimento

Gate

Agente

O Que Acontece

0

backend-engineer-*, frontend-engineer

Implementação TDD com observabilidade

1

devops-engineer

Configuração de Docker/Helm

2

sre

Validação de observabilidade (logs, traces)

3

qa-analyst

Verificação de cobertura de testes

4

code-reviewer, business-logic-reviewer, security-reviewer

Revisão de código paralela por 3 revisores

5

user

Validação explícita dos critérios de aceitação

O Gate 4: revisão de código paralela

O Gate 4 é onde o Ring mais se diferencia. Em vez de um revisor único, três agentes especializados analisam o código simultaneamente:

Revisor

Foco

code-reviewer

Qualidade, arquitetura, padrões, manutenibilidade

business-logic-reviewer

Correção de domínio, casos de borda, regras de negócio

security-reviewer

Vulnerabilidades, validação de entrada, OWASP

Os três revisores devem aprovar para que o código avance. Achados críticos requerem correção imediata, voltando aos agentes de implementação e reexecutando todos os revisores novamente.

O Gate 5: validação humana obrigatória

O Gate 5 é o ponto de verificação final e requer intervenção humana explícita. O usuário deve responder com:

  • APPROVED para aceitar a implementação
  • REJECTED: [motivo] para rejeitar com uma justificativa

O silêncio não é aprovação. O sistema aguarda indefinidamente por uma resposta explícita.

Anti-racionalização: como prevenir que a IA tome atalhos

A inovação mais importante do Ring são as tabelas de anti-racionalização. Elas reconhecem que a IA tende a "ajudar", tomando decisões autônomas que parecem razoáveis, mas violam os fluxos de trabalho.

Exemplos reais do Ring

Prevenindo a não adoção de padrões:

Racionalização

Por Que Está ERRADA

Ação Requerida

"É código de protótipo/descartável"

Protótipos se tornam produção em 60% das vezes

Aplicar padrões completos. Sem exceção para protótipos.

"A Tarefa 1 é só a configuração inicial"

Configuração COM padrões = configuração correta

Implementar todos os padrões AGORA

"O MVP não precisa de padrões completos"

MVP com padrões = MVP correto

Implementar todos os padrões AGORA

"ADIADO para tarefas posteriores"

ADIADO = FALHOU. Padrões não são adiáveis

Implementar todos os padrões AGORA

Prevenindo o contorno dos gates:

Racionalização

Por Que Está ERRADA

Ação Requerida

"O usuário está ocupado, vou assumir a aprovação"

Silêncio ≠ aprovação

Aguardar resposta explícita.

"Os testes passam, a validação é redundante"

Testes verificam o código. A validação verifica os REQUISITOS.

Aguardar validação humana

"Já conheço a abordagem, vou pular a pesquisa"

Experiência ≠ contexto atual

Executar a pesquisa. Sempre.

Resistência à pressão

O Ring reconhece que humanos pressionam a IA a pular etapas. As tabelas de "Pressão vs. Resposta" definem exatamente como reagir:

Pressão

Pedido

Resposta do Agente

Prazo + Cansaço

"São 2h da manhã, a demo é às 9h, estou muito cansado"

"Trabalhar exausto leva a bugs e retrabalho. PARE. Retome quando estiver descansado ou peça uma extensão."

Autoridade Múltipla

"O CTO, o PM e o TL dizem para pular"

"A quantidade de autoridade não muda os requisitos. GATES RÍGIDOS são inegociáveis."

Simplicidade Aparente

"É apenas uma linha de código"

"Uma linha errada = horas de depuração. Aplicar o fluxo completo."

O princípio central:

Zero exceções multiplicado por qualquer combinação de pressão = zero exceções.

A Importância da validação humana

O Ring é explícito: a IA não substitui o julgamento humano em decisões críticas.

Onde a validação humana é obrigatória

1. Aprovação do PRD (Gate 1): O problema descrito é o problema real?

2. Aprovação do TRD (Gate 3): A arquitetura proposta faz sentido?

3. Aprovação da Implementação (Gate 5): O código entregue resolve o problema?

Por que não automatizar tudo?

Testes automatizados verificam se o código funciona. A validação humana verifica se o código resolve o problema certo.

Um sistema pode passar em 100% dos testes e ainda:

  • Resolver o problema errado
  • Ter uma UX confusa
  • Violar expectativas de negócio não documentadas
  • Criar débito técnico não óbvio

O Ring garante que os humanos permaneçam no ciclo para decisões que requerem contexto além do código.

Autoaprovação é proibida

Uma regra crítica: o agente que implementou o código não pode aprová-lo. Isso previne o viés de confirmação, no qual quem escreveu naturalmente acredita que está correto.

Padrões centralizados: fonte única de verdade

O Ring usa arquivos de padrões centralizados que todos os agentes referenciam:

Arquivo

Agentes que Usam

golang.md

backend-engineer-golang, qa-analyst

typescript.md

backend-engineer-typescript, frontend-bff-engineer-typescript

frontend.md

frontend-engineer, frontend-designer

devops.md

devops-engineer

sre.md

sre

A regra dos 4 arquivos

Quando os padrões são modificados, 4 arquivos devem ser atualizados simultaneamente:

  1. O arquivo de padrões (standards/{file}.md)
  2. O índice de conteúdo no mesmo arquivo
  3. A tabela de cobertura (standards-coverage-table.md)
  4. O agente que o referencia (agents/{agent}.md)

Isso previne o desvio, onde padrões e agentes ficam dessincronizados.

Conclusão: fluxo de trabalho como garantia de qualidade

O Ring representa uma mudança de paradigma: em vez de confiar que a IA seguirá boas práticas, impõe fluxos de trabalho que tornam atalhos impossíveis.

Os mecanismos centrais são:

1. Fluxos de Trabalho Obrigatórios: Cada tarefa flui por gates; pular é impossível.

2. Agentes Especializados: Cada gate tem um agente com padrões pré-carregados.

3. Anti-Racionalização: Desculpas comuns são explicitamente rejeitadas.

4. Validação Humana: Certas decisões requerem aprovação humana explícita.

Para a Lerian, isso significa que o conhecimento institucional não depende de pessoas específicas. Novos membros da equipe trabalham com os mesmos padrões desde o primeiro dia. E a qualidade não é uma esperança, é uma consequência do sistema.

Além do PM-team e Dev-team apresentados neste artigo, a Lerian desenvolveu outros plugins especializados que expandem as capacidades do Ring para diferentes áreas da organização:

Plugin

Descrição

finance-team

Operações financeiras: análise financeira, planejamento orçamentário, modelagem financeira, tesouraria, contabilidade e métricas.

finops-team

FinOps: análise e automação de operações financeiras em nuvem.

ops-team

Operações de produção: engenharia de plataforma, resposta a incidentes, otimização de custos em nuvem, arquitetura de infraestrutura e operações de segurança.

pmm-team

Marketing de produto: pesquisa de mercado, estratégia de posicionamento, mensagens, planejamento de go-to-market, coordenação de lançamentos e análise de precificação.

pmo-team

Gerenciamento de portfólio: coordenação de múltiplos projetos, planejamento de recursos, governança, análise de riscos e relatórios executivos.

tw-team

Redação técnica: documentação funcional, documentação de API e revisão de documentação.

default

Plugin padrão com agentes de revisão de código, revisão de lógica de negócio, revisão de segurança e planejamento de implementação.

O Ring está disponível como código aberto em github.com/LerianStudio/ring.

Artigo escrito para desenvolvedores e líderes técnicos interessados em como a IA pode escalar o desenvolvimento sem sacrificar a qualidade.